
Os evangelhos narram como Jesus foi sujeito a várias tentações ao longo da vida. “Salva-te a ti mesmo” é a última tentação a que Jesus é sujeito. Uma tentação final, já na cruz. Fizeram-na os chefes dos judeus e, também, um dos malfeitores que com Ele tinha sido crucificado.
Mas (temos de o reconhecer) este é, ainda hoje, o modo habitual de agirmos: primeiro salvamo-nos a nós mesmos e só depois procuramos, eventualmente, salvar os outros.
Para a maioria dos que, naquele dia, se encontravam diante de Jesus crucificado, salvar-se a si mesmo — quer dizer: libertar-se da cruz e da morte — seria o modo supremo de Jesus mostrar que tinha, de verdade, o poder de Deus. Só que Jesus recusou salvar-Se a si mesmo. Recusou pensar primeiro em si. Toda a sua vida foi centrada no outro: no Pai e nos irmãos. S. Paulo dirá que Jesus se esqueceu de si e da sua condição divina (Filp. 2,6-8). A salvação que Jesus propõe a todos, naquele tempo como hoje, é outra bem diferente: é “estar com” — estar com Deus e estar com os irmãos.
Ali, naquele dia da cruz, o bom ladrão entendeu isso: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com a tua realeza”. Foi por isso que apenas ele escutou do Senhor aquela afirmação que, como diz o Papa Francisco, o tornou o primeiro santo canonizado pela Igreja: “Hoje estarás comigo no paraíso”.
Jesus, a sua realeza, está bem longe de ser o reino do “salve-se quem puder”. É antes o reino do “Senhor, lembra-te de mim”!
+ Nuno, Bispo do Funchal