{"id":1469,"date":"2022-10-29T11:48:44","date_gmt":"2022-10-29T11:48:44","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/?p=1469"},"modified":"2022-10-29T11:48:49","modified_gmt":"2022-10-29T11:48:49","slug":"carta-pastoral-sobre-o-beato-carlos-daustria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/?p=1469","title":{"rendered":"Carta Pastoral sobre o Beato Carlos D&#8217;A\u00fastria"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"667\" height=\"479\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/paroquiasportosanto.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/karl_banner.jpg?resize=667%2C479&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-855\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/paroquiasportosanto.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/karl_banner.jpg?w=667&amp;ssl=1 667w, https:\/\/i0.wp.com\/paroquiasportosanto.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/karl_banner.jpg?resize=300%2C215&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 667px) 100vw, 667px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&#8220;Ser\u00e3o chamados filhos de Deus&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Bem-aventurados os que promovem a paz porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus&#8221; (Mt 5,9). Estas palavras de Jesus concretizaram-se dum modo particular na vida do Beato Carlos de \u00c1ustria, cujo centen\u00e1rio do falecimento iremos celebrar no pr\u00f3ximo dia 1 de Abril &#8211; ele cujo corpo \u00e9 guardado e venerado na igreja de Nossa Senhora do Monte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Santa Teresa Benedita da Cruz &#8211; m\u00e1rtir do \u00f3dio nazi aos judeus e aos crist\u00e3os durante a II\u00aa Guerra Mundial &#8211; escreveu que &#8220;\u00e9 na noite mais escura que surgem os maiores profetas e os santos&#8221;. Ao partilharmos com a humanidade um dos seus momentos mais dif\u00edceis, ao vivermos uma guerra que julg\u00e1vamos ser imposs\u00edvel na Europa, quero recordar a todos o exemplo de santidade deste pai de fam\u00edlia e governante, que na Madeira, sofrendo o ex\u00edlio, a pobreza e a doen\u00e7a, ofereceu a sua vida pela paz entre os povos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A santidade, como afirmou claramente o Papa Francisco, \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o de todos os crist\u00e3os: &#8220;Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o p\u00e3o para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir&#8221; (Exorta\u00e7\u00e3o &#8220;Alegrai-vos e exultai&#8221;, 7).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, ao receber a fam\u00edlia do Beato Carlos, durante o Ano da Miseric\u00f3rdia, o mesmo Papa Francisco n\u00e3o hesitou em afirmar: &#8220;Carlos de \u00c1ustria foi antes de tudo um bom pai de fam\u00edlia, e como tal um servidor da vida e da paz. Ele conheceu a guerra, por ter sido soldado no in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial. Tendo assumido o reino em 1916, e sendo sens\u00edvel \u00e0 voz do Papa Bento XV, prodigalizou-se com todas as for\u00e7as na luta pela paz, \u00e0 custa de ser incompreendido e escarnecido. Tamb\u00e9m nisto ele nos oferece um exemplo mais atual do que nunca, e podemos invoc\u00e1-lo como intercessor para obter de Deus a paz para a humanidade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos s\u00e3o os livros escritos a prop\u00f3sito da vida e do testemunho deste &#8220;Santo Imperador&#8221;. N\u00e3o os quero repetir mas apenas (sobretudo a quantos peregrinarem nestes pr\u00f3ximos meses jubilares ao t\u00famulo do Beato Carlos), recordar os tra\u00e7os gerais da vida deste crist\u00e3o, e mostrar como nele Deus foi construindo a &#8220;forma&#8221; de Jesus, manifestando, deste modo, a Sua proximidade e presen\u00e7a no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os anos felizes da inf\u00e2ncia de Carlos de \u00c1ustria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando, em 17 de Agosto de 1887, no castelo de Persenbeug, junto do Dan\u00fabio, nasceu um pequeno arquiduque a quem foi posto o nome de Carlos, Viena encontrava-se no auge do &#8220;romantismo&#8221;. Carlos fazia parte desse mundo feliz de pr\u00edncipes, princesas, bailes e castelos que inspiraram tantos filmes e romances.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parecia destinado a ser mais um membro da fam\u00edlia imperial, usando o t\u00edtulo de &#8220;arquiduque&#8221; mas conformando-se em ser o 6\u00ba na ordem da sucess\u00e3o do seu tio-av\u00f4, o velho imperador Francisco Jos\u00e9. Um dos seus mestres na inf\u00e2ncia descreveu o jovem Arquiduque como tendo &#8220;docilidade de car\u00e1cter, sensibilidade fora do comum, precoce consci\u00eancia do dever, desejo de agradar aos outros, profunda inclina\u00e7\u00e3o religiosa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois epis\u00f3dios s\u00e3o sintom\u00e1ticos deste seu car\u00e1cter. Bride Casey, encarregada nos primeiros anos da sua educa\u00e7\u00e3o, recordou como, a certa altura, se deu conta do desaparecimento de muitas camisas do arm\u00e1rio de Carlos. Interrogadas as empregadas do Pal\u00e1cio, estas responderam: &#8220;Sua Alteza Imperial ofereceu-as todas \u00e0s crian\u00e7as pobres&#8221;. Noutra ocasi\u00e3o, Carlos dirigiu-se ao administrador do Pal\u00e1cio que pagava os sal\u00e1rios aos oper\u00e1rios, perguntando se tamb\u00e9m ele n\u00e3o poderia trabalhar no jardim para ganhar qualquer coisa. O administrador, admirado, respondeu: &#8220;Para que \u00e9 que queria ganhar qualquer coisa?&#8221;. E Carlos retorquiu: &#8220;H\u00e1 tanta gente pobre; iria ajud\u00e1-los se pudesse ganhar qualquer coisa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eram, no dizer do historiador Gordon Brook-Shepherd, os sinais precoces daquela bondade de \u00e2nimo que manteve sempre intacta como arquiduque, imperador e exilado. A promessa que baloi\u00e7ava na crian\u00e7a, manteve-se no homem. N\u00e3o \u00e9 um retrato elaborado por pais cegos pelo afecto, ou por um qualquer obsequioso homem da corte. \u00c9 uma imagem que todos reconheceram aut\u00eantica, fossem parentes pr\u00f3ximos ou long\u00ednquos, defensores ou advers\u00e1rios pol\u00edticos, na p\u00e1tria ou no estrangeiro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1905, depois de concluir os estudos secund\u00e1rios num mosteiro beneditino, Carlos come\u00e7ou a carreira militar exigida a um membro da fam\u00edlia real. Com a morte do pai, a 1 de novembro de 1906, passou a ser o terceiro na linha da sucess\u00e3o. Por isso, dedicou-se durante dois anos a um programa intensivo de estudos de direito e pol\u00edtica na Universidade de Praga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O momento mais dif\u00edcil da sua vida espiritual experimentou-o quando, chegada a maioridade dos 20 anos, passou a viver no castelo de Brandeis sem a companhia dos familiares e dos mestres. Nesse tempo, apenas a frequ\u00eancia dos sacramentos e a ora\u00e7\u00e3o o mantiveram na f\u00e9, apesar do progresso espiritual ter sofrido uma paragem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo indica que foi nestes momentos mais dif\u00edceis, e diante da desola\u00e7\u00e3o que experimentava, que Carlos descobriu a Eucaristia como ref\u00fagio. Essa devo\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica jamais o havia de abandonar, e tornou-se uma caracter\u00edstica da sua vida: j\u00e1 comandante do ex\u00e9rcito, fazia sempre de modo a que os seus homens pudessem ter acesso a um lugar de adora\u00e7\u00e3o do Sant\u00edssimo Sacramento, e v\u00e1rias vezes foi surpreendido a rezar diante do Sacr\u00e1rio antes de tomar grandes decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O matrim\u00f3nio e a vida familiar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi pois num ambiente de alguma solid\u00e3o interior que, em 1909, o jovem Arquiduque conheceu Zita de Bourbon-Parma, ent\u00e3o com 17 anos, filha do Duque Roberto de Bourbon-Parma e da Infanta portuguesa Maria Ant\u00f3nia de Bragan\u00e7a. O seu noivado foi celebrado em 13 Junho de 1911, em Capezzano Pianore (It\u00e1lia), propriedade do pai de Zita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A percep\u00e7\u00e3o da santidade do matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia ficou clara no pedido que Carlos fez \u00e0 sua noiva, logo ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o: &#8220;Agora devemos ajudar-nos um ao outro a chegar ao C\u00e9u&#8221;. De acordo com Zita, este foi o mote de toda a sua vida conjugal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco depois, Zita deslocou-se a Roma acompanhada pela fam\u00edlia, a fim de pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Papa S. Pio X para o Matrim\u00f3nio que deveria celebrar-se dentro dalguns meses. Carlos estava impedido de se deslocar a Roma, por raz\u00f5es protocolares e pol\u00edticas. No final da audi\u00eancia, S. Pio X segurou as m\u00e3os de Zita e disse-lhe: &#8220;Ides desposar o herdeiro do trono; desejo-vos todas as b\u00ean\u00e7\u00e3os&#8221;. Zita ainda tentou corrigir o Santo Padre, dizendo que o herdeiro do trono imperial era o Arquiduque Francisco Ferdinando, mas o Papa acrescentou de imediato: &#8220;E alegro-me infinitamente, porque Carlos \u00e9 a recompensa que Deus reservou \u00e0 sua fam\u00edlia e \u00e0 \u00c1ustria por tudo quanto fez pela Igreja. Quando for Imperatriz, \u00e9 necess\u00e1rio fazer com Carlos tudo o poss\u00edvel para terminar a guerra&#8221;. Ao sair da audi\u00eancia, Zita confidenciou a sua m\u00e3e: &#8220;Felizmente, o Papa n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel em mat\u00e9ria de pol\u00edtica&#8221;. Mas o facto \u00e9 que, da\u00ed por tr\u00eas anos, tudo iria acontecer como S. Pio X tinha anunciado: Carlos seria o herdeiro directo do trono e come\u00e7aria a Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da celebra\u00e7\u00e3o do Matrim\u00f3nio, Carlos pediu ao jesu\u00edta Carlo Maria Andlau que o ajudasse a preparar espiritualmente aquele momento, meditando nos gestos e nas palavras da celebra\u00e7\u00e3o. O sacerdote recordou depois como Carlos viveu aqueles tempos: &#8220;Franco, interiormente simples, firme e com rectid\u00e3o de vontade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Matrim\u00f3nio de Carlos e Zita foi celebrado em Schwarzau no dia 21 de Outubro de 1911. Nas alian\u00e7as, os esposos quiseram gravar o in\u00edcio da conhecida ant\u00edfona da Virgem Maria: &#8220;Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genitrix&#8221; (&#8220;\u00c0 tua protec\u00e7\u00e3o nos acolhemos, Santa M\u00e3e Deus&#8221;), consagrando deste modo toda a sua vida familiar \u00e0 intercess\u00e3o de Nossa Senhora. Com esta mesma inten\u00e7\u00e3o, os jovens esposos foram, dias depois, consagrar a sua nova fam\u00edlia, deslocando-se em peregrina\u00e7\u00e3o ao santu\u00e1rio Mariano de Mariazell.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora o matrim\u00f3nio correspondesse aos pedidos que o Imperador Francisco Jos\u00e9 tinha feito a Carlos em 1910, todos s\u00e3o un\u00e2nimes em reconhecer que o amor e a f\u00e9 se encontravam na raiz desta fam\u00edlia. Foi um amor profundo, at\u00e9 ao final &#8211; at\u00e9 \u00e0quele: &#8220;Amo-te infinitamente&#8221;, com que, no \u00faltimo dia da sua vida, Carlos se haveria de despedir de Zita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas foi tamb\u00e9m um amor que ultrapassou a pr\u00f3pria morte: Zita &#8220;era uma vi\u00fava cujo marido existia ao seu lado&#8221;, testemunharam os seus filhos e netos. A pr\u00f3pria Imperatriz confidenciou a uma neta, dias antes de morrer: &#8220;Sabes, vou morrer em breve. Mas n\u00e3o fiques triste: vou finalmente rever o teu av\u00f4. H\u00e1 67 anos que espero por este momento!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Carlos de \u00c1ustria foi determinante a vida familiar. A irm\u00e3 de Zita, Maria Ant\u00f3nia, reconheceu que aquele era um &#8220;casamento duma harmonia completa nas op\u00e7\u00f5es fundamentais e no pensamento; nele reinava uma confian\u00e7a total&#8221;. E um estudioso da vida de Carlos de \u00c1ustria afirmou: &#8220;A grande uni\u00e3o existente entre os dois c\u00f4njuges, o nascimento de uma prole numerosa, a genu\u00edna atmosfera de natural e alegre religiosidade que se respirava na nova fam\u00edlia, tiveram um influxo determinante no progresso espiritual de Carlos e na sua ascens\u00e3o \u00e0 santidade&#8221; (Dalla Torre).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os filhos n\u00e3o tardaram a aparecer, e foram em grande n\u00famero: Ot\u00e3o nasceu em 20 de Novembro de 1912; a 3 de Janeiro de 1914, nasceu Adelaide. Roberto ir\u00e1 nascer a 8 de Fevereiro de 1915, e F\u00e9lix a 31 de Maio de 1916. Carlos Lu\u00eds nascer\u00e1 em 10 de Mar\u00e7o de 1918; Rudolfo a 5 de Setembro de 1919, e Carlota a 1 de Mar\u00e7o de 1921. Por fim, Elizabete, que nasceu em Espanha, em 31 de Maio de 1922, j\u00e1 depois da morte do pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de todas as tarefas governativas, Carlos n\u00e3o deixou nunca de dedicar tempo e cuidado \u00e0 fam\u00edlia. Foi, no dizer de Ot\u00e3o, o seu primeiro educador na f\u00e9: &#8220;Tinha uma sabedoria religiosa pessoal e muito profunda, e deu-nos a n\u00f3s, seus filhos, um ensino religioso completo. Sempre permaneceu em mim impressa a convic\u00e7\u00e3o e a imagem de meu pai como um homem de f\u00e9 profunda, verdadeiramente vivida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De modo particular, Carlos vincava nos filhos a necessidade de agradecer o dom inestim\u00e1vel da f\u00e9, levando-os ele mesmo \u00e0 igreja, narrando-lhes a vida de Jesus, rezando com eles e ensinando-lhes as verdades fundamentais da f\u00e9. Nesta educa\u00e7\u00e3o para a f\u00e9, ocupava um largo espa\u00e7o a educa\u00e7\u00e3o para o amor do pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os anos da Guerra: Imperador e construtor da paz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Carlos nasceu, cinco outros arquiduques tinham a preced\u00eancia na linha de sucess\u00e3o ao trono. Ou seja: para que Carlos viesse um dia a ser Imperador, seria necess\u00e1ria uma sucess\u00e3o de acontecimentos improv\u00e1veis. O facto, por\u00e9m, \u00e9 que, um ap\u00f3s outro, todos esses acontecimentos foram tendo lugar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, em 1896, faleceu Carlos Lu\u00eds (1833-1896), irm\u00e3o do Imperador e pai de Francisco Ferdinando, de Ot\u00e3o Francisco (o pai de Carlos) e de Ferdinando Carlos Lu\u00eds. Em 1889, morreu em circunst\u00e2ncias algo misteriosas o \u00fanico filho var\u00e3o do Imperador e seu herdeiro natural, Rudolfo de Habsburgo-Lorena (1858- 1889). Em 1900, Francisco Ferdinando, ao casar com uma noiva que n\u00e3o era de ascend\u00eancia real (casamento morgan\u00e1tico), impediu os seus filhos de entrar na linha da sucess\u00e3o. Em 1906, faleceu o arquiduque Ot\u00e3o de Habsburgo-Lorena (1865-1906), pai de Carlos. E, em 1911, Ferdinando Carlos Lu\u00eds renunciou aos direitos de sucess\u00e3o por quest\u00f5es matrimoniais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir deste momento, Carlos passou a saber que iria reger o imp\u00e9rio ap\u00f3s a morte do herdeiro directo de Francisco Jos\u00e9, o seu tio Francisco Ferdinando. Mas, previsivelmente, tal sucederia apenas dentro de uma ou duas d\u00e9cadas. Contudo, o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, no dia 28 de Junho de 1914, iria mudar mesmo essa previs\u00e3o, e Carlos passou a ser o herdeiro imediato do velho Imperador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois do atentado de Sarajevo e na sequ\u00eancia de acontecimentos anteriores, relacionados sobretudo com o apoio dado aos nacionalistas, o Imperador Francisco Jos\u00e9 declarou guerra \u00e0 S\u00e9rvia. Uns dias antes, consciente do car\u00e1cter pac\u00edfico do seu sobrinho-neto e herdeiro, Francisco Jos\u00e9 tinha dito a Carlos: &#8220;Vou ter que fazer coisas pelas quais n\u00e3o ter\u00e1s responsabilidade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Declarada a Guerra, Carlos, apesar de ser o herdeiro do trono, continuou a servir no ex\u00e9rcito: &#8220;camarada leal, chefe inteligente e piedoso; uma figura de pai para os seus homens&#8221; &#8211; \u00e9 deste modo que o descrevem aqueles que com ele serviam. Por outro lado, as cartas que escrevia a Zita e que foram depois conhecidas, mostram-no muito preocupado com as condi\u00e7\u00f5es dos soldados e com as consequ\u00eancias que a guerra teria nos povos do Imp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao notar como, no in\u00edcio, muitos viviam entusiasmados o momento da guerra, Carlos confidenciou a Zita: &#8220;Sou Oficial, mas n\u00e3o compreendo como \u00e9 que gente que v\u00ea partir os seus homens para a guerra se pode entusiasmar deste modo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que era no in\u00edcio somente um conflito entre dois Estados, depressa se tornou numa Guerra europeia. Os jogos das alian\u00e7as, o nacionalismo exacerbado presente um pouco por toda a Europa, a vontade de fazer a Guerra (tamb\u00e9m como modo de dar origem a uma &#8220;nova&#8221; Europa e, por parte dos alem\u00e3es, a certeza de sair vencedor, com a possibilidade de vingar derrotas antigas e aumentar o peso internacional do pa\u00eds), incendiaram rapidamente o Velho Continente, dividindo-o em dois grandes blocos: a Alemanha, a \u00c1ustria- Hungria e a Turquia por um lado; e, por outro, a Fran\u00e7a, a Gr\u00e3-Bretanha, a R\u00fassia e a B\u00e9lgica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quem olhar a sucess\u00e3o dos acontecimentos nos dias que antecederam o in\u00edcio da Guerra e os esfor\u00e7os realizados para que esta n\u00e3o fosse desencadeada, quase parece que uma m\u00e3o invis\u00edvel dirigia os protagonistas para o abismo, impedindo todos os esfor\u00e7os em favor da paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos, como Oficial do Ex\u00e9rcito, partiu para a Guerra, servindo em v\u00e1rias frentes. Um autor descreveu-o nestes momentos: &#8220;O seu car\u00e1ter alegre, am\u00e1vel, atraente, conquistou as simpatias e amizades de colegas e soldados. Mas, ao mesmo tempo, o seu r\u00edgido sentido do dever, a perfeita actua\u00e7\u00e3o do seu servi\u00e7o, impuseram-no \u00e0 admira\u00e7\u00e3o e estima dos que lhe estavam pr\u00f3ximos&#8221;. Muitos recordam-se de ver Carlos com o Ter\u00e7o na m\u00e3o, recolhido em ora\u00e7\u00e3o ou simplesmente dirigindo os seus homens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 21 de Novembro de 1916, morreu o velho Imperador Francisco Jos\u00e9. Carlos assumiu de imediato o comando do Imp\u00e9rio. Dias antes do falecimento do Imperador, Carlos, ent\u00e3o com 29 anos de idade, tinha dito: &#8220;A tarefa principal que aquele que \u00e9 respons\u00e1vel pelo futuro da monarquia deve ter presente \u00e9 a de iniciar o mais breve poss\u00edvel o caminho para uma boa paz&#8221;. Assim, no dia seguinte a ser Imperador, Carlos fez publicar um &#8220;Manifesto&#8221; no qual se comprometia a respeitar e guardar todas as liberdades dos seus povos e a &#8220;fazer tudo para p\u00f4r fim o mais breve poss\u00edvel aos horrores e aos sacrif\u00edcios da guerra&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 30 de Dezembro desse ano, Carlos foi solenemente coroado Rei Apost\u00f3lico da Hungria. Nessa ocasi\u00e3o, recebeu a un\u00e7\u00e3o real e pronunciou um solene juramento: em nome de Deus, assumiu a responsabilidade por todo o seu povo. Esse momento marcou-o para o resto da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Imperatriz Zita afirmou, recordando o acto da coroa\u00e7\u00e3o: &#8220;Significou que, a partir desse momento, uma enorme responsabilidade pesava sobre os ombros do Imperador Carlos. Isso incitou-nos a voltar-nos ainda mais para Deus. Implor\u00e1mo-lo para que nos ajudasse, e iluminasse todos os acontecimentos que iriam suceder, e sobretudo que nos guiasse para a paz&#8221;. Carlos e Zita assumiram pois o seu lugar de governantes como uma miss\u00e3o: todos os povos do Imp\u00e9rio lhes tinham sido confiados, pelo que deviam rezar, sofrer, sacrificar-se por eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como era seu prop\u00f3sito, Carlos come\u00e7ou, logo de in\u00edcio, a procurar caminhos de paz, ainda que a situa\u00e7\u00e3o militar fosse nessa altura favor\u00e1vel ao Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro. Como afirma Fran\u00e7ois Fejt\u00f6: &#8220;Desde a sua chegada ao trono, Carlos foi obcecado pela ideia de sair da guerra&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira iniciativa &#8211; que esteve quase a chegar a bom porto &#8211; foi tomada logo no princ\u00edpio de 1917, atrav\u00e9s do irm\u00e3o de Zita, o pr\u00edncipe Sixto, oficial do ex\u00e9rcito belga mas com contactos ao mais alto n\u00edvel no governo franc\u00eas. Falhada esta por ter sido boicotada por v\u00e1rios dos negociadores, Carlos n\u00e3o desistiu e apoiou as outras tentativas de di\u00e1logo, em particular as do Papa Bento XV. Todos estes caminhos se revelaram becos sem sa\u00edda. Como afirma um historiador contempor\u00e2neo: &#8220;Veio depois a saber-se que qualquer proposta de paz, mesmo a mais generosa, teria sido sempre recusada pelas pot\u00eancias inimigas&#8221; (Mario Carotenuto). N\u00e3o espanta pois que Carlos de \u00c1ustria tenha sido chamado &#8220;o Imperador da Paz&#8221; &#8211; seja pelos constantes esfor\u00e7os em fazer a paz, seja pela paz que ele pr\u00f3prio vivia, que impressionava a todos, e que era fruto da sua proximidade com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, durante a Guerra, Carlos cortou todos os luxos no pal\u00e1cio imperial: os carros foram colocados ao servi\u00e7o do transporte de alimentos para os mais necessitados; as refei\u00e7\u00f5es foram reduzidas; e os oficias chegaram mesmo a dizer que se comia melhor na messe da frente da batalha que no Pal\u00e1cio do Imperador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, Carlos e Zita n\u00e3o hesitaram em deslocar-se em visita aos seus soldados (c\u00e1lculos efectuados mostram que ter\u00e1 passado cerca de 1\/3 do tempo de reinado junto dos seus soldados), tornando-se pr\u00f3ximo de todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do seu governo, Carlos tomou ainda v\u00e1rias medidas decisivas: come\u00e7ou por afastar do comando os generais que se mostravam incapazes de gestos de humanidade e apenas olhavam para a vit\u00f3ria qualquer que fosse o seu custo; suprimiu o duelo entre os oficiais, bem como as puni\u00e7\u00f5es corporais; proibiu o uso de g\u00e1s venenoso nas trincheiras e o bombardeamento de popula\u00e7\u00f5es civis (salvando em concreto a cidade de Veneza, que esteve para ser destru\u00edda pela avia\u00e7\u00e3o Austro-H\u00fangara). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1917, conseguiu fazer aprovar uma amnistia geral para os presos pol\u00edticos. \u00c9 ainda de Carlos a iniciativa de criar, pela primeira vez no mundo, um &#8220;Minist\u00e9rio dos Assuntos Sociais&#8221;. N\u00e3o espanta, portanto, que o Imperador se tivesse visto cada dia mais abandonado pelos colaboradores e acompanhado apenas por sua esposa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Junho de 1918, a derrota alem\u00e3 na frente francesa e a derrota austr\u00edaca na frente italiana colocaram praticamente um fim \u00e0 Guerra. Em Setembro, a rendi\u00e7\u00e3o da Bulg\u00e1ria conduziu ao pedido de armist\u00edcio efectuado pela \u00c1ustria, Alemanha e Turquia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Guerra estava perdida, mas Carlos continuava \u00e0 frente do Imp\u00e9rio. Era o momento de reconstruir e relan\u00e7ar um novo modo de agir. Assim, a 16 de Outubro, fez publicar o &#8220;Manifesto dos povos&#8221;, propondo uma renova\u00e7\u00e3o constitucional de tipo federalista para os povos do Imp\u00e9rio, e a 28 desse m\u00eas nomeou um novo governo. Contudo, ao contr\u00e1rio do que tinha prometido meses antes, o presidente americano Wilson recusou-lhe o apoio. E, depois deste, os outros l\u00edderes europeus, que sempre tinham garantido a defesa da perman\u00eancia do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, viraram-lhe as costas. Uma ap\u00f3s outra, cada na\u00e7\u00e3o, outrora reunida sob o Imp\u00e9rio, declarou a sua independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta sequ\u00eancia, a 11 de Novembro, o governo austr\u00edaco pediu a abdica\u00e7\u00e3o do Imperador. Este, aconselhado por sua esposa, recusou abdicar mas assinou um documento em que aceitava retirar-se temporariamente do exerc\u00edcio do poder. No dia seguinte, foi proclamada a Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 17 de Mar\u00e7o de 1919 foi pedido a Carlos que escolhesse entre tr\u00eas possibilidades: ou a abdica\u00e7\u00e3o completa e formal, que permitiria \u00e0 fam\u00edlia imperial permanecer na \u00c1ustria, com todos os seus bens e propriedades; ou a partida para o ex\u00edlio; ou a pris\u00e3o. Em 23 de Mar\u00e7o, a fam\u00edlia imperial partiu para o ex\u00edlio na Su\u00ed\u00e7a. Foi despojada de todos os bens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Instado por v\u00e1rios conselheiros e por v\u00e1rias entidades internacionais (entre as quais o pr\u00f3prio Papa), bem como pela consci\u00eancia do dever que tinha assumido para com o seu povo ao ser coroado em Budapeste, Carlos recusou todas as press\u00f5es para abdicar. Tinha a consci\u00eancia de ser a \u00fanica possibilidade de sobreviv\u00eancia do Imp\u00e9rio e daquilo que ele significava para a Europa. Foi tamb\u00e9m por isso que empreendeu, mesmo exilado na Su\u00ed\u00e7a, duas tentativas de regressar a Budapeste para retomar as r\u00e9deas do governo (na P\u00e1scoa e em Outubro de 1921). Foram tentativas falhadas, sobretudo pela oposi\u00e7\u00e3o do &#8220;Regente&#8221;, Almirante Mikl\u00f3s Horthy: o apoio que, com l\u00e1grimas nos olhos, tinha garantido a Carlos antes da partida deste para o ex\u00edlio, era agora negado. Em 4 de Novembro de 1921, tamb\u00e9m a Assembleia Nacional H\u00fangara aboliu todos os direitos de Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos e Zita (que, em Outubro, j\u00e1 gr\u00e1vida, tinha insistido em acompanhar o esposo na tentativa de regresso a Budapeste) foram levados sob escolta ao longo do pa\u00eds, at\u00e9 embarcarem para a Madeira no navio Cardiff, recebendo in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es de carinho por parte das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Na Madeira, guiado pela vontade de Deus<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Carlos e Zita subiram para o navio que os iria conduzir ao ex\u00edlio, receberam uma \u00fanica visita: a do N\u00fancio Apost\u00f3lico na Hungria, Mons. Lorenzo Schioppa. Foi ele quem relatou o estado de alma de Carlos e Zita naquele momento: &#8220;O rei Carlos e a rainha Zita n\u00e3o s\u00e3o pessoas comuns. S\u00e3o figuras que assumem uma grandeza b\u00edblica. Vi muitas coisas na minha vida, mas n\u00e3o poderei esquecer aquele adeus ao casal real. A minha alma sacerdotal foi edificada e enriquecida com uma nova experi\u00eancia, porque pude verificar que ainda existem almas grandes, verdadeiramente crist\u00e3s. O rei acolheu com uma calma sobre-humana o seu destino, e quando lhe quis expressar a minha compaix\u00e3o, foi ele a consolar-me, dizendo: &#8216;Deus quis que fosse assim&#8217;. Esta clara vis\u00e3o da vontade de Deus d\u00e1 ao mais desafortunado dos pr\u00edncipes a for\u00e7a de suportar uma prova t\u00e3o dura e dif\u00edcil. Muitos foram aqueles que, no momento do perigo, abandonaram o seu soberano, desejoso de paz; mas ele, como verdadeiro crist\u00e3o, a todos perdoou. No momento de se afastar para um ex\u00edlio long\u00ednquo e para um futuro incerto, ele n\u00e3o disse mais nada a n\u00e3o ser: \u00abPus toda a minha esperan\u00e7a em Deus\u00bb. Nobres sentimentos que tornam ainda mais claras as palavras ditas pelo rei no momento das grandes dificuldades: \u00abN\u00e3o quero fazer derramar uma \u00fanica gota de sangue por mim: prefiro o ex\u00edlio\u00bb&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dias depois, antes de mudarem de embarca\u00e7\u00e3o, transferindo-se para o Cardiff, Carlos e Zita receberam a visita de um Padre capuchinho que lhes levou a Eucaristia. Ainda n\u00e3o conheciam o seu destino, n\u00e3o tinham qualquer not\u00edcia dos filhos, nem sequer outra roupa a n\u00e3o ser a que levavam no corpo. Em Gibraltar, o Cardiff teve que fazer uma paragem maior, por causa do mau tempo. Foi ent\u00e3o permitido, uma vez mais, que um outro sacerdote subisse a bordo e celebrasse a Missa. De Gibraltar, o barco rumou ao Funchal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando chegaram \u00e0 Madeira, a 19 de Novembro, Carlos e Zita de Habsburgo estavam apenas acompanhados pelo Conde J\u00f3zeph Hunyady e sua esposa. Zita estava gr\u00e1vida da que viria a ser a \u00faltima filha do casal. Ora no dia 19 de Novembro a Igreja celebra a mem\u00f3ria de Santa Isabel (Elizabete) da Hungria. Por isso, Carlos disse a Zita: &#8220;Se for menina, vamos cham\u00e1-la Elizabete&#8221;. Carlos n\u00e3o viria a conhecer esta sua \u00faltima filha, que havia de nascer em Espanha, dias depois da sua morte. Ainda no barco, o olhar de Carlos descobriu as duas torres da igreja de Nossa Senhora do Monte: &#8220;Que saudades desperta em n\u00f3s aquela igreja!&#8221;, confidenciou a Zita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de n\u00e3o haver qualquer recep\u00e7\u00e3o oficial, Carlos e Zita foram acolhidos por uma pequena multid\u00e3o, pelo C\u00f3n. Homem de Gouveia (em representa\u00e7\u00e3o do Bispo D. Ant\u00f3nio Pereira Ribeiro) e pelo Presidente da C\u00e2mara do Funchal. O governo portugu\u00eas colocou \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o a Vila Vict\u00f3ria, uma depend\u00eancia do &#8220;Reids Palace Hotel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante os primeiros dias, Carlos e Zita sairam apenas para ir \u00e0 Missa na S\u00e9 e para visitar o Bispo do Funchal. Entretanto, foi montada uma capela na Vila Vict\u00f3ria: tinha sido o \u00fanico pedido que o Imperador fizera ao Bispo do Funchal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos e Zita estavam no Funchal, mas os seus filhos tinham ficado na Su\u00ed\u00e7a. A 25 de novembro chegou a not\u00edcia de que um deles, Roberto, precisava de ser submetido a uma cirurgia ao ap\u00eandice. Zita come\u00e7ou a fazer as dilig\u00eancias para estar com ele, conseguindo no dia 9 de Dezembro a obten\u00e7\u00e3o dum passaporte portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos dias depois, a 22 de Dezembro, chegou \u00e0 Madeira D. Jo\u00e3o de Almeida, antigo oficial da Guarda Imperial austr\u00edaca: como era portugu\u00eas, n\u00e3o necessitava de qualquer autoriza\u00e7\u00e3o governamental (a sua esposa chegaria tamb\u00e9m, semanas mais tarde). Foi um dos mais pr\u00f3ximos do Imperador ao longo da sua estada na Ilha. Nessas poucas semanas, todos queriam convidar e gozar da companhia de Carlos e de Zita: podemos perceb\u00ea-lo facilmente lendo as not\u00edcias dos di\u00e1rios madeirenses dessa altura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, a 4 de Janeiro, Zita partiu para a Su\u00ed\u00e7a, para junto do filho, uma viagem paga pela venda no Funchal das poucas j\u00f3ias pessoais que Carlos tinha consigo. Zita s\u00f3 regressar\u00e1 \u00e0 Madeira a 2 de Fevereiro, acompanhada por seis dos seus filhos, todos expulsos da Su\u00ed\u00e7a, e por alguns servos da Casa. Outros chegar\u00e3o apenas em meados de Fevereiro, como foi o caso do Padre Zs\u00e0mboki. Roberto, em recupera\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, permaneceu na Su\u00ed\u00e7a, e s\u00f3 haveria de chegar a 2 de Mar\u00e7o, acompanhado pela sua tia-av\u00f3, D. Maria Teresa de Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, no dia 1 de fevereiro, o Director do Reids tinha pedido a Carlos que pagasse o aluguer da Vila Vict\u00f3ria. O Imperador tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o apenas 5.000 francos su\u00ed\u00e7os, que usou para saldar a d\u00edvida. Rocha Machado, um homem de neg\u00f3cios madeirense que vivia na Su\u00ed\u00e7a, sabendo das dificuldades econ\u00f3micas da fam\u00edlia, colocou \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o a Quinta do Monte. Era uma resid\u00eancia agrad\u00e1vel para o Ver\u00e3o, mas completamente inadequada para o Inverno. Contudo, num dos raros dias de sol, o Imperador visitou a casa e quis imediatamente mudar-se, mesmo pedindo emprestado muito do necess\u00e1rio para a\u00ed viver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabemos que o tempo do Monte \u00e9, no geral, bem diferente daquele dia de sol, e o clima h\u00famido e frio n\u00e3o tardou a fazer-se sentir. Foram dias de verdadeira pobreza, de falta de alimento, de frio, com pouca \u00e1gua, com falta de electricidade&#8230; dias de abandono. Uma empregada descreveu a situa\u00e7\u00e3o numa carta, s\u00f3 publicada depois da morte de Carlos: &#8220;Estou verdadeiramente desesperada, dizia. Algu\u00e9m deve fazer alguma coisa, porque Suas Majestades n\u00e3o mover\u00e3o um dedo e, sem dizer uma palavra, v\u00e3o deixar-se fechar num buraco a p\u00e3o e \u00e1gua, se for isso que deles se exige&#8230; Naturalmente, todos nos ajudamos uns aos outros para combater as dificuldades. Por vezes falta-nos a coragem: mas quando vemos a paci\u00eancia de Suas Majestades, aceitamos tudo, retomamos o f\u00f4lego e continuamos em frente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, estes primeiros dias na Quinta do Monte, j\u00e1 com a fam\u00edlia toda reunida, foram tamb\u00e9m dias de felicidade: passeios frequentes, conversas de Carlos com os filhos mais velhos, Ot\u00e3o e Adelaide.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi durante um desses passeios que a fam\u00edlia se deparou com o funeral de um homem, acompanhado apenas por uma crian\u00e7a que chorava e por uma mulher que o segurava pela m\u00e3o. E toda a fam\u00edlia, cheia de compaix\u00e3o, incorporou-se no cortejo e acompanhou em ora\u00e7\u00e3o aquele pobre at\u00e9 \u00e0 sua \u00faltima morada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A 9 de Mar\u00e7o, Carlos desceu a encosta para, juntamente com Ot\u00e3o e Adelaide, comprar no Funchal um presente para Carlos Lu\u00eds, cujo anivers\u00e1rio ocorria no dia seguinte. No regresso, apanhou um resfriado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m disso, de 15 a 19 de Mar\u00e7o, toda a fam\u00edlia foi atacada pela gripe. O m\u00e9dico, dr. Monteiro, chamado s\u00f3 no dia 21, julgou a situa\u00e7\u00e3o do Imperador como muito grave: os pulm\u00f5es tinham sido completamente atacados. Pediu, no entanto, que se consultasse um outro colega, o dr. Porto, que confirmou o primeiro diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por estes dias, chegou finalmente \u00e0 Madeira o Conde Joseph K\u00e2roly que n\u00e3o descansou at\u00e9 chegar junto do seu Rei no ex\u00edlio. Foi a \u00faltima visita que, j\u00e1 de cama, o Imperador insistiu em receber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No domingo 26 de Mar\u00e7o, o Padre Zs\u00e0mboki celebrou uma Missa. O Imperador, de cama e acometido pela tosse, insistiu que fosse lido o evangelho da multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es. Durante a celebra\u00e7\u00e3o, a tosse de Carlos parou. &#8220;Gostaria muito de ver o altar&#8221;, disse para Zita, uma vez que a porta do quarto s\u00f3 estava entreaberta. Apenas a Condessa Mensdorff se preparava para comungar. &#8220;Tamb\u00e9m eu quero comungar&#8221;, disse Carlos. &#8220;Imposs\u00edvel &#8211; respondeu Zita &#8211; Foi consagrada apenas uma part\u00edcula&#8221;. &#8220;Por favor, vai e diz que tamb\u00e9m eu &#8216;devo&#8217; comungar&#8221;. A Imperatriz levantou-se e, chegada \u00e0 porta, viu que o sacerdote j\u00e1 tinha dado a Comunh\u00e3o \u00e0 condessa Mensdorff, mas que tinha ainda na m\u00e3o uma segunda part\u00edcula consagrada, e olhava \u00e0 sua volta. \u00c9 que j\u00e1 no decorrer da Missa, o P. Zs\u00e0mboki tinha sentido um impulso que o levou a consagrar uma segunda part\u00edcula. E Carlos confessou: &#8220;Enquanto escutava as palavras do Confiteor, parecia-me ter Jesus junto de mim, que me dizia: &#8216;Sim, comunga&#8217;. Eu n\u00e3o percebia e estava hesitando. E Jesus disse: &#8216;Vamos, agora a Comunh\u00e3o deve ser recebida&#8217;. Ent\u00e3o n\u00e3o pensei noutra coisa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os m\u00e9dicos sentiram-se impotentes. Sujeitaram Carlos a dolorosos tratamentos que, se durante algum tempo lhe aliviam a tosse, faziam, por outro lado, inchar de tal modo as pernas que as dores se tornavam insuport\u00e1veis. O rosto de Carlos apenas se alegrava ao escutar os filhos que brincavam no jardim, e com a companhia da esposa. Mas nunca se escutou dele uma queixa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O IV Domingo da Quaresma era, no Monte, marcado pela Prociss\u00e3o dos Passos. Nesse Domingo, todos rezaram &#8220;pela sa\u00fade do bom Imperador Carlos&#8221;, e muitos foram os que bateram \u00e0 porta da Quinta do Monte para saber not\u00edcias do doente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir do dia 27 de Mar\u00e7o, a febre continuou a subir at\u00e9 aos 40\u00ba. Os m\u00e9dicos decidiram que seria necess\u00e1rio oxig\u00e9nio. Nesse dia \u00e0 noite, o P. Zs\u00e0mboki decidiu dar a Santa Un\u00e7\u00e3o a Carlos. Antes de se confessar pela \u00faltima vez e de receber a Santa Un\u00e7\u00e3o, o Imperador disse: &#8220;Perdoo a todos os meus inimigos, a todos os que me ofenderam e a todos os que maquinaram contra mim&#8221;. Logo depois, pediu que o seu filho mais velho estivesse presente na celebra\u00e7\u00e3o: &#8220;Quero que se recorde para sempre, para que, um dia, tamb\u00e9m ele saiba o que um verdadeiro cat\u00f3lico deve fazer nesta situa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dada altura, Carlos confessou a Zita: &#8220;Prometi a Deus permanecer sereno durante os tratamentos, e nada fazer que n\u00e3o seja necess\u00e1rio, mas obedecer em tudo, por Seu amor&#8221;. E noutro momento: &#8220;Gostava tanto poder ver os nossos filhos&#8230; Mas pe\u00e7o-te que n\u00e3o entrem aqui. N\u00e3o seria prudente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o piorou rapidamente na tarde de sexta-feira. Zita colocou-lhe nas m\u00e3os uma imagem do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. O \u00fanico modo de obter algum al\u00edvio era o oxig\u00e9nio. Mas havia pouqu\u00edssimo no Funchal, e devia ser transportado para o Monte em pesados recipientes que duravam apenas para sete minutos. Zita disse-lhe que era necess\u00e1rio n\u00e3o se cansar de ter paci\u00eancia. &#8220;Cansar-me? Lamentar-me? Mas quando se conhece a vontade de Deus, tudo \u00e9 bem, tudo \u00e9 bom!&#8221;, disse Carlos. E acrescentou: &#8220;Quero dizer-te claramente: eu procuro sempre e unicamente conhecer a vontade de Deus, sempre e em todas as coisas, o melhor poss\u00edvel, e segui-la de modo mais perfeito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim desse dia, a Imperatriz come\u00e7ou a rezar com ele as suas ora\u00e7\u00f5es preferidas, segurando-lhe as m\u00e3os. O P. Zs\u00e1mboki comunicou ao Imperador a chegada de uma b\u00ean\u00e7\u00e3o da parte do Santo Padre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A 1 de Abril, os m\u00e9dicos, verificando o constante agravar-se do estado do doente, reconheceram que o fim estava muito pr\u00f3ximo. Por volta das 10 horas, o Imperador disse com clareza: &#8220;Devo sofrer muito para que os meus povos possam de novo encontrar-se unidos&#8221;. E ainda: &#8220;Meu Deus, arrependo-me de todo o cora\u00e7\u00e3o destes e de todos os meus pecados e imperfei\u00e7\u00f5es, porque com eles Te ofendi, Meu Deus. Desgostei-Te&#8221;. E depois: &#8220;Caro Salvador, protege os nossos filhos&#8230; Guarda-os no corpo e na alma. Faz com que prefiram morrer a cometer um pecado mortal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, por volta das 11h30, Carlos dirigiu a Zita as \u00faltimas palavras: &#8220;Amo-te infinitamente&#8221;. Entretanto,\u00ab faltou o oxig\u00e9nio. No seu \u00faltimo respiro, os que estavam \u00e0 sua cabeceira ainda escutaram: &#8220;Jesus&#8221;. Eram 12h23. O cora\u00e7\u00e3o do &#8220;Santo Imperador&#8221; tinha deixado de bater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o &#8220;Santo Imperador&#8221; (como os madeirenses gostam de lhe chamar), aprendamos tamb\u00e9m n\u00f3s a procurar sempre e em toda a parte a vontade de Deus, procurando corresponder-lhe o melhor que nos for poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que este tempo, vivido em companhia do Beato Carlos de \u00c1ustria, e recebendo a indulg\u00eancia, tal como o Papa Francisco nos concedeu, possa ser, tamb\u00e9m para n\u00f3s, aquilo que, h\u00e1 cem anos atr\u00e1s, significou para toda a diocese a sua presen\u00e7a, o seu testemunho e a sua morte, como escreveu o ent\u00e3o Bispo do Funchal, D. Ant\u00f3nio Pereira Ribeiro: &#8220;Nenhuma miss\u00e3o tem concorrido t\u00e3o eficazmente para avivar a F\u00e9 na minha diocese como o exemplo da paci\u00eancia her\u00f3ica e da morte santa do seu Imperador&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Funchal, 24 de Mar\u00e7o de 2022<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>+ Nuno, Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ser\u00e3o chamados filhos de Deus&#8221; &#8211; Carta Pastoral do Bispo do Funchal sobre o Beato Carlos D&#8217;A\u00fastria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":858,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[13,15],"tags":[],"class_list":["post-1469","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bispo-do-funchal","category-mensagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1469\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/858"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiasportosanto.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}