
Li ontem o depoimento de uma jovem espanhola que nasceu fruto duma “fecundação in vitro”, sem conhecer o seu pai biológico: “É terrível”, dizia.
Hoje, com 32 anos, dedica grande parte do seu tempo a procurar a família que nunca conheceu, os irmãos por quem terá já passado e que nunca saudou. Criou mesmo uma associação para exigir que a legislação permita que, ao menos, todos possam conhecer o seu pai biológico. E acrescentava: “Nós não somos um sonho, como se fôssemos a realização de uma viajem”.
Há dias, teve um ataque de angústia e chamaram uma ambulância. “Perguntaram-me pelos antecedentes da minha família no que respeita a enfartes de coração. Nesse momento, dei-me conta de que nada sei da história médica do meu pai biológico. Entrei em pânico”.
Mas o caso destes homens e mulheres que desconhecem o seu pai biológico simplesmente porque alguém sonhou ter um filho e as técnicas da medicina o permitem é apenas uma situação entre muitas. Hoje, vivemos num mundo em que o gosto, o desejo individual parece ser o grande critério do agir e das próprias leis, ainda que à custa de outras vidas humanas. Tudo gira à volta do eu, daquilo que alguém acha serem os seus direitos. Raramente pensamos nos outros e nas consequências das nossas acções: o que nos importa é conseguir os nossos desejos e sonhos. Parece que regressámos à selva, onde impera a lei do mais forte.
Como nos estamos a distanciar de Jesus e do Evangelho! Aí tudo gira à volta do outro. É o outro que é importante escutar e salvar. Ele é o grande valor! Por sua causa, posso mesmo esquecer-me de mim. Tal como Jesus.
+Nuno, Bispo do Funchal